SÃO PAULO (Reuters) – A possível vitória do democrata Joe Biden para a Presidência dos Estados Unidos, que se desenha nas eleições do país, pode significar o restabelecimento de relações comerciais americanas pelo mundo, principalmente com a China, e como consequência reduzir a avidez nas exportações agropecuárias do Brasil ao mercado chinês, trazida pela guerra entre Pequim e Washington.

O Brasil, maior produtor e exportador global de soja, viu suas vendas externas da oleaginosa baterem recordes ao longo do ano, apoiadas pelo câmbio e pela firme demanda chinesa.

“A provável normalização de relações (dos EUA) com a China poderá refletir em uma futura perda de mercado do complexo soja e outras commodities para o Brasil”, disse o diretor executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Eduardo Daher, sobre um eventual governo Biden.

Os EUA são rivais do Brasil na exportação de soja e outros produtos, como carnes, enquanto a China lidera nas compras dessas mercadorias.

Já o presidente institucional da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Cesário Ramalho, afirmou que em um primeiro momento, de fato, pode haver queda nas vendas do Brasil para a China, mas no médio prazo –que é o que importa ao empresariado, segundo ele– a tendência é de volta do equilíbrio no fornecimento da oleaginosa por brasileiros e americanos. “Acho que Biden vai se aproximar mais da China… mas ela precisa da soja brasileira e da americana”, disse Ramalho. Desta forma, ele acredita que não há “a menor possibilidade” de uma redução muito grande nas exportações do Brasil.

O diretor da Agroícone, Rodrigo Lima, acrescentou que, uma vez que Brasil e Estados Unidos são players importantes para o mercado chinês, não só na soja, mas em demais commodities, como carnes, minério de ferro, algodão, etc, independentemente de quem vá vencer as eleições norte-americanas, os países devem apostar em suas relações comerciais. “A gente tem que construir isso e manter”, afirmou Lima, sobre a estratégia que deveria ser adotada pelos brasileiros para evitar impactos significativos como os que podem ser causados com o retorno de relações mais amistosas entre EUA e China.

No contraponto, o presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, avalia que a mudança na presidência dos EUA deve ter pouca influência nas exportações brasileiras. “EUA são muito grandes, tem um economia pujante e com Estado pequeno. O que vale lá é a vontade das empresas e dos empresários. O capitalismo americano e a economia de lá independem das ações do Estado, seja para vender seja para comprar. As economias de Brasil e dos EUA estão acima dos governos.”

O presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto Castro, acredita que com um governo Biden, o comércio internacional vai se tornar mais previsível, diferentemente da postura autoritária e de pouco diálogo da atual gestão de Donald Trump, que afetou o chamado multilateralismo. Castro destaca que, historicamente, os democratas têm uma postura mais protecionista da economia, mas os republicanos, que não têm a mesma tradição de fechamento econômico, adotaram medidas protecionistas firmes no governo Trump.

Produtores brasileiros de aço, alumínio e etanol seriam os mais ameaçados por um governo, eventualmente, protecionista. “Tem que ser um jogo de ganha-ganha. No caso do etanol, por exemplo, os Estados Unidos entraram aqui com o etanol de milho sem dar nada em troca”, frisou, em referência à extensão de prazo que os brasileiros deram para que uma cota do biocombustível fosse importada sem tarifa, até dezembro.

O presidente da Abramilho classificou este episódio como um pedido feito “errado” pelo governo brasileiro, pois não culminou na contrapartida necessária, que seria uma ampliação para vendas do açúcar do Brasil aos EUA, e uma medida que “desagradou” o setor produtivo. “Eu produzo cana e a usina que me compra parou de comprar porque estavam entupidos os tanques com armazenamento do etanol… Isso foi um prejuízo muito grande”, contou Ramalho.

Na avaliação do diretor da Agroícone, a questão das cotas do etanol é um exemplo de que não houve benefícios diretos ao Brasil com a atual gestão americana e, para ele, não há um ambiente em que o agronegócio brasileiro saia muito favorecido, em termos de avanço nas exportações, independentemente de quem vá para a Casa Branca.

OMC E AS QUESTÕES AMBIENTAIS
Um ponto visto como positivo para o Brasil mediante uma vitória de Biden é o realinhamento norte-americano com órgãos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a própria Organização das Nações Unidas (ONU), disse o diretor da Abag.

Lima, da Agroícone, acrescentou que o enfraquecimento da OMC que Trump propõe prejudica o Brasil porque quanto menos regras multilaterais tiverem, mais você tem guerras comerciais em que, normalmente, só um lado ganha. “Com Biden, prefiro ter regras claras e funcionando do que não ter regras (como é com Trump) e acho que isso tem prejudicado o agronegócio do Brasil”, afirmou o diretor da consultoria.

Ainda em um cenário com Biden, o presidente da AEB frisou que o Brasil terá que se preparar para uma cobrança ambiental maior para manter portas abertas e negócios com outros países. Caso contrário, poderá ficar “fora do jogo” do comércio global. Ele lembrou que Biden conhece bem o Brasil desde a época em que foi vice do ex-presidente Barack Obama, e a vice na chapa dele nas eleições presidenciais, Kamala Harris, é totalmente engajada com as causas ambientais. “Não adianta se insurgir e dizer que os dados do desmatamento estão errados. Tem que enfrentar isso de peito aberto se quisermos participar do comércio mundial mais efetivo”, afirmou Castro à Reuters. “Agora não é mais ser contra ou favor do meio ambiente, estamos falando em ficar dentro ou fora do jogo chamado comércio global”, adicionou.

Para Lima, estas questões podem resultar na necessidade de mudança na postura do governo brasileiro e até mesmo põe em xeque a manutenção de alguns ministros. “Não consigo enxergar que Esnesto Araujo se sustentaria caso Biden vença. Teríamos que ter um ministro de Relações Exteriores mais de centro”, pontuou. Além disso, Ramalho, da Abramilho, ressaltou que sem Trump, Bolsonaro também se enfraquece no discurso internacional sobre meio ambiente.

Reportagem adicional de Rodrigo Viga Gaier.
Texto por Nayara Figueiredo

Fonte: Reuters