O poder do voto exige do Presidente eleito um Projeto de Nação
01/10/26

O Brasil se prepara para mais uma eleição. E, diante das urnas, é importante lembrar que o voto não representa apenas o direito de escolher governantes. Ele é a transferência temporária de um poder: o poder de decidir os rumos do país.
Em 2027, o presidente eleito ou reeleito receberá muito mais do que um mandato. Receberá a responsabilidade de liderar uma sociedade profundamente diversa, marcada por enormes potencialidades, mas também por divisões que vêm comprometendo a confiança nas instituições e dificultando a construção de consensos necessários ao desenvolvimento do Brasil.
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu, em seu artigo 2º, que os Poderes da União — Legislativo, Executivo e Judiciário — são independentes e harmônicos entre si. Esse equilíbrio é um dos fundamentos da democracia.
Hoje, porém, não podemos ignorar as tensões institucionais que colocam esse princípio à prova.
A divisão brasileira ultrapassa as disputas políticas e ideológicas. Ela alcança instituições, organizações, grupos sociais e, muitas vezes, o próprio ambiente familiar. Divergir é legítimo e necessário em uma democracia. O que não podemos aceitar como normal é que a polarização comprometa a confiança nas instituições e nos impeça de construir aquilo que é maior do que nossas diferenças: um projeto de país.
É nesse contexto que o poder volta às mãos do eleitor.
Nas urnas, escolheremos presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. A eles caberá exercer, em nosso nome, o mandato que lhes foi confiado.
Por isso, há uma primeira expectativa que deve ser comum a todos: respeito ao resultado das urnas.
Aos que não forem eleitos, cabe reconhecer a legitimidade da escolha democrática e continuar contribuindo com suas ideias e propostas. Aos vencedores, cabe compreender que a vitória eleitoral não é um cheque em branco. O mandato pertence à sociedade. E a sociedade brasileira precisa de mais do que uma gestão honesta e competente.
Precisa de liderança capaz de construir pontes, dialogar com diferentes setores e conduzir transformações que ultrapassem os limites de um governo ou de um partido.
O Brasil precisa deixar para trás a lógica dos privilégios e avançar na construção de uma verdadeira Nação de Oportunidades.
Isso exige reformas estruturais, responsabilidade fiscal, eficiência do Estado, fortalecimento das instituições, modernização política e partidária, aprimoramento da Justiça e um ambiente favorável ao empreendedorismo responsável, à inovação, aos investimentos e à geração de empregos.
Mas reformas dessa dimensão não serão construídas pela lógica da confrontação permanente.
O presidente eleito para 2027 deveria convocar a sociedade brasileira para um grande Projeto de Nação. Uma Concertação Nacional que reúna governo e oposição, diferentes correntes políticas e ideológicas, setor produtivo, academia, organizações da sociedade civil e lideranças capazes de contribuir para uma visão de longo prazo para o Brasil.
E essa construção deveria contar também com aquilo que o Brasil tem de mais valioso: suas “reservas morais”, pessoas e instituições que, por sua trajetória, experiência e compromisso com o interesse público, possam contribuir para uma visão de futuro que esteja acima das disputas circunstanciais.
Essas vozes poderiam ajudar a construir um Pacto pelo Brasil Nação, reunindo diferentes conhecimentos, experiências e perspectivas para estabelecer uma agenda nacional de longo prazo.
Não se trata de eliminar diferenças. Trata-se de reconhecer que uma Nação forte não precisa pensar de forma homogênea. Precisa ser capaz de transformar sua diversidade em força.
O presidente deve deixar para trás os argumentos de palanque e assumir a responsabilidade de liderar um projeto que seja maior do que seu governo, seu partido ou suas convicções individuais.
Precisamos de um Pacto pelo Brasil Nação. Um pacto que reúna diferentes visões e competências para construir uma agenda nacional de longo prazo, com prioridades claras para o desenvolvimento econômico e social, a educação, a saúde, a segurança, a sustentabilidade, a inovação, a competitividade e a geração de oportunidades.
Essa agenda deveria ser submetida ao debate democrático do Congresso Nacional, envolvendo Câmara dos Deputados e Senado Federal, e, quando constitucionalmente cabível, contar com os instrumentos de participação popular previstos em nossa democracia.
Mais do que um programa de governo, precisamos de uma agenda de Estado.
Uma agenda que não comece nem termine em uma eleição. Que seja capaz de atravessar governos e ciclos políticos e que estabeleça compromissos permanentes com o futuro do país.
O Brasil tem recursos naturais, talentos, diversidade, capacidade empreendedora e uma posição estratégica no mundo. Temos condições concretas de construir uma Nação ainda mais próspera, competitiva e justa. O que falta não é potencial. Falta transformar nossas potencialidades em um projeto comum.
Nós, eleitores, somos os detentores do poder do voto. Nas urnas, transferimos esse poder àqueles que escolheremos para nos representar.
E é justamente por isso que devemos esperar deles mais do que a administração do presente.
Devemos cobrar visão de futuro. O Brasil precisa de líderes capazes de unir, e não apenas de vencer. De construir, e não apenas de disputar. De pensar além do próximo ciclo eleitoral e assumir a responsabilidade pelo país que deixaremos às próximas gerações.
O poder do voto nos dá essa responsabilidade.
E o mandato que dele nascer deve ter como compromisso maior a construção de um Brasil que supere a Nação de privilégios e avance, definitivamente, na direção de uma Nação de oportunidades para todos.
Ingo Plöger
Presidente da ABAG