ESG 2.0: Economia, Segurança, GeoPolítica e o novo Roteiro da América Latina
18/07/26
Quando Marcos Troyjo, diplomata brasileiro e ex- presidente do Banco dos BRICS, desenhou o conceito do ESG 2.0 em síntese mostrou como a percepção global mudou com o segundo governo do Pres. Trump. De uma agenda internacional de governança e sustentabilidade ambiental ESG, houve uma brusca manobra em direção ao exercício de poder, tanto bélico, econômico quanto de interesses nacionais. Do ESG 1.0 economia, sustentabilidade e governança se dirigem para o ESG 2.0 Economia, Segurança e Geopolítica como sendo uma guinada brusca.
A “hegemonia predatória” descrita por Stephen M. Walt 2), demonstra quando na história observamos situações de hegemonia de poder, o exercício coercitivo imputado pelas diversas formas pelo poder, militar, econômico, populacional, e de costumes entre outros, a revelia dos demais. As vitorias de curto prazo dos hegemônicos são visíveis, mas nem sempre são constantes e duradouras.
Mas não só a hegemonia predatória de Trump é colocada em evidência, mas também da própria China, que ao buscar os mercados internacionais por preços predatórios, não se atendeu aos princípios do fair trade, mas conquistando mercados pela força de sua economia crescente cada vez mais tecnológica, subvencionada por uma economia de estado.
A Europa que diariamente negocia com seus 27 membros o denominador mínimo comum, exporta seus conceitos normas e tendencias junto aos consumidores mundiais, que atendem seus interesses, e se tornam predatórias a outras realidades do mundo.
O que fora montado por negociações por décadas buscando, as regras de convivência civilizada em organismos internacionais, não mais servia aos hegemônicos como EUA, China e a Europa. O descontentamento internacional com os organismos multinacionais, se tornou uma agenda crescente de países desenvolvidos como os em desenvolvimento. Mas a mudança destes organismos como a OMC, UNCTAD, Banco Mundial, BID, OMS, e a própria ONU, não ocorreu.
O conflito entre os hegemônicos se dá na ruptura institucional sucessiva, iniciada pelos China ao não mais atender critérios de fair trade e respondidos pelos EUA na OMC, seguido pela EU nas decretações unilaterais de critérios ambientais. A nova administração Trump, quebra de vez o respeito a regras e impõe um estilo autocrático de governança internacional.
Os conflitos bélicos tanto na Europa, quanto no Oriente Médio, e as tenções na Asia, levaram os EUA a forçar seus parceiros naturais e vizinhos a se submeter ao poderio americano, obrigando-os a elevar intensamente seus orçamentos de defesa. A forma belicosa de demonstrar que as suas preferencias tem custo compartilhado colocou a todos a rever seus conceitos de segurança.
Deixou inequívoco, que os EUA não mais estariam dispostos a garantir a segurança do Ocidente, mas que cada um teria que renovar suas próprias defesas. Joga o comercio internacional na decisão ou eles ou eu, colocando tudo e todos na divisão mundial.
A Europa entendeu, tarde, mas de maneira clara que investimentos de 2% do PIB eram pouco para manter sua segurança frente a uma guerra em suas fronteiras. Os países árabes também, reconheceram que até certo ponto podiam contar com os EUA, mas se não incrementassem suas defesas estariam descobertos a ameaças concretas do Irã.
As guerras contemporâneas, ainda tem um agravante que milicias (combate sem uniforme) se tornam elementos chave nas guerras, e se é que se pode falar do último consenso ético, também ali desmorona por completo, por incluir a população indefesa na luta. A hegemonia predatória se revela também nos valores e condutas éticas que não mais são garantidos.
Ormuz por outro lado demonstra que o poder por logística é determinante e não só este estreito, mas os demais na Asia são estratégicos.
Nesta divisão de opções, a China se encontra em uma situação delicada, pois se de um lado quer conquistar os mercados mundiais por seus produtos altamente competitivos, necessita trazer ao jogo atitudes concludentes que façam o mercado confiar no seu fair play. Precisará de um lado dedicar maior esforço bélico, para se manter na competição onde os EUA são muito mais fortes, por outro lado, terá que conduzir sua economia com altos subsídios e sua moeda desvalorizada para manter suas exportações. As portas se fecham aos seus produtos enquanto mantem uma atitude predatória de conquista por preço.
A pressão econômica na Rússia assume proporções muito grandes, sem muitos aliados para onde recorrer, o que faz com que a guerra na Ucrania se torne vital para a própria manutenção do regime. Daí a dedução que o que a governança que antes era tida como um parâmetro de estabilidade agora se torna um instrumento de operacionalizar o poder potencial e possível. Na hegemonia predatória, segundo Walt e Troyjo, a polarização e o descolamento decoupling , se tonam a nova estratégia de países e economias. As tradicionais cadeias produtivas globais, já não operam mais sob a única ótica econômica e de sustentabilidade. Agora os vieses de segurança e geopolítica tornam estes caminhos possíveis. As estratégias de países e de empresas mudam suas prioridades nesta ótica, entendendo que a previsibilidade foi reduzida e a avaliação geopolitica e de segurança são elementos indispensáveis.
A América Latina, neste novo modus operandi ESG 2.0, como potência média, tem relevância secundaria no E econômico, por seus 670 milhões de consumidores e um PIB da metade da China e Europa. Em termos de S segurança, somente joga na segunda liga quando se trata do bélico, mas no que diz respeito à segurança alimentar, energética e de bioinsumos pode assumir protagonismo. No G de geopolítica tem uma posição razoável de equilíbrio no que se refere à sua participação nas cadeias produtivas globais junto à China, EUA e EU e crescente no Oriente Médio, África e Indonésia e Malásia.
O softpower da América Latina está aquém do seu potencial, em alguns temas está à frente das evoluções atuais, como sustentabilidade, inserção social, disseminação racial, e inclusão. Nas tecnologias tropicais entre outras toma liderança e protagonismo. Cabe, portanto, um papel a América Latina de trabalhar estas potencialidades com objetividade e alinhamento regional. Muitas oportunidades são possíveis neste cenário a médio e curto prazo. A construção de um Road Map é uma grande oportunidade regional. Integração digital, física, tecnologias tropicais, cooperação setorial e econômica entre outras podem dar destaque para investimentos e formas colaborativas como PPP, cooperativismo e empreendedorismo entre outros.
Devemos buscar na cooperação, no empreendedorismo e na inovação tropical a opção das soluções para o desenvolvimento latino-americano na rota deste Road Map.
Ingo Plöger
Presidente da ABAG