Crescimento do agro reforça necessidade de diversificar a matriz logística
27/08/26

O crescimento contínuo da produção agropecuária brasileira vem aumentando a pressão sobre a infraestrutura de transporte do país e reforçando a necessidade de ampliar a eficiência e diversificar a matriz logística.
O tema esteve no centro da primeira reunião do Comitê de Infraestrutura e Logística da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), que reuniu representantes do setor produtivo, do governo e especialistas para discutir o atual cenário, prioridades e perspectivas.
Já na abertura do encontro, o presidente do Comitê, Guilherme Penin, da Cosan, destacou os desafios impostos pela dimensão continental do Brasil e pela interiorização da produção agropecuária. Na sequência, Roberto Araújo, coordenador do Comitê pela Abag, trouxe detalhes da atuação da entidade e o papel do colegiado na construção de prioridades e na articulação de agendas estratégicas para ampliar a eficiência e a competitividade da infraestrutura logística do agro.
Durante a reunião, Thiago Péra, da EsalqLog, apresentou um panorama da logística brasileira e destacou a pressão gerada pelo avanço da produção. Segundo ele, o agro vem batendo recordes sucessivos, ampliando continuamente a demanda por transporte e infraestrutura.
“O agronegócio tem batido recordes ano a ano no país e isso pressiona a logística”
Péra também chamou atenção para a dimensão da demanda de transporte e para a elevada participação do modal rodoviário na matriz brasileira. Atualmente, cerca de 65% da movimentação de transporte no Brasil ocorre pelas rodovias. O especialista também pontuou o baixo nível histórico de investimentos em transporte e infraestrutura, estimado entre 0,4% e 0,6% do PIB.
“A demanda de transporte é derivada da demanda de produção”
A predominância das rodovias também foi relacionada aos desafios de eficiência energética, custos e sustentabilidade. Para acompanhar o crescimento da produção, Péra destacou a necessidade de ampliar a integração entre rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e terminais, reduzindo gargalos e aumentando a eficiência da matriz logística.
Ferrovias como alternativa para ampliar eficiência
Na segunda parte de sua apresentação, Thiago Péra discutiu o potencial da expansão do transporte ferroviário no Brasil. O modal apresenta maior capacidade de carga, eficiência energética e menor nível de emissões em comparação ao rodoviário, além de oferecer vantagens particularmente relevantes nos deslocamentos de longa distância.
Segundo os dados apresentados, uma viagem ferroviária pode transportar entre 8 e 12 mil toneladas, enquanto um caminhão transporta cerca de 30 toneladas. O transporte sobre trilhos também foi apresentado como aproximadamente 2,5 vezes mais eficiente energeticamente que o rodoviário e com cerca de 60% menos emissões de CO₂.
Apesar desse potencial, o estudo apresentado mostra que o crescimento do volume de cargas transportadas por ferrovias ainda não foi suficiente para promover uma diversificação significativa da matriz brasileira, reforçando a necessidade de ampliar a utilização eficiente da infraestrutura e sua integração com os demais modais.
O estudo também apontou uma possibilidade de economia de até 6% até 2035 com uma utilização mais ampla das ferrovias. A estimativa gerou discussão entre os participantes sobre os investimentos necessários para ampliar o modal e os benefícios econômicos, ambientais e sociais dessa expansão, considerando também sua integração com rodovias alimentadoras, terminais, hidrovias e portos.
“A ferrovia pode ser pensada como uma indutora de crescimento social como um todo”
Integração entre logística e transporte aéreo
A discussão avançou para outros modais com a participação de Clarissa Barros, da Secretaria Nacional de Aviação Civil do Ministério dos Portos e Aeroportos. Ela destacou a importância de aproximar o setor público das demandas específicas do agro e ressaltou o papel estratégico do transporte aéreo na movimentação de produtos de maior valor agregado e sensíveis ao tempo.
“O agro é metade da pauta exportadora do Brasil e o aéreo carrega a parte mais cara dela.”
Embora represente menos de 1% da matriz de transporte de cargas em volume, o modal aéreo responde por aproximadamente 5% do valor exportado e 20% do valor importado pelo Brasil. No agronegócio, o transporte aéreo é relevante para cargas de maior valor agregado e que demandam rapidez e confiabilidade, como insumos, material genético, medicamentos veterinários, vacinas, frutas e cafés especiais.
Clarissa também apontou que a ampliação da oferta de voos pode contribuir para a movimentação de cargas do agro, uma vez que aeronaves de passageiros também transportam produtos e mercadorias.
“Quanto mais voos de passageiros acontecerem, com valores menores, mais produtos o agro consegue movimentar também”
Para ela, o encontro representa uma oportunidade de aproximar o Ministério e o setor produtivo e aprofundar o conhecimento sobre as necessidades do agronegócio em relação à conectividade aérea e à infraestrutura aeroportuária.
O vice-presidente do comitê, Eduardo Macedo, da Latam, destacou que “Essa é uma excelente oportunidade para o setor empresarial estreitar a relação com o governo e aprofundar as discussões sobre o papel do transporte aéreo no agro brasileiro.”
Planejamento de longo prazo
A reunião também contou com a participação de Gabriela Avelino, do Ministério dos Transportes, que apresentou aspectos relacionados ao Plano Nacional de Logística (PNL) 2050. O planejamento de longo prazo busca integrar os diferentes modais e orientar prioridades de investimento a partir dos problemas e objetivos socioeconômicos que a infraestrutura deverá atender.
“A gente entende que os planos de longo prazo se alinhem entre diversos setores”
Gabriela destacou ainda o amplo processo de participação realizado pelo Ministério para subsidiar o planejamento. O PNL 2050 contou com consultas e audiências públicas, além de 95 entrevistas com empresas e associações dos setores produtivo e de transportes.
“A gente fez 95 entrevistas, de maneira bem abrangente, para ouvir o máximo de partes possíveis”
O encontro foi encerrado por Guilherme Penin, reforçando a perspectiva de continuidade das discussões sobre infraestrutura e logística dentro da ABAG. Ao longo da reunião, os debates evidenciaram que acompanhar o crescimento da produção agropecuária exige planejamento de longo prazo, investimentos e maior integração entre os diferentes modais. A diversificação da matriz logística é fundamental para ampliar a eficiência, a competitividade e a resiliência da infraestrutura brasileira nas próximas décadas.