Agro busca espaço nas decisões sobre clima e carbono

21/09/26


A agenda climática avança sobre decisões com impacto direto na competitividade, no acesso a mercados e nas oportunidades econômicas do agronegócio brasileiro. Diante desse cenário, ampliar a participação do setor na formulação das políticas nacionais e nos fóruns internacionais tornou-se estratégico. Esse foi um dos principais pontos debatidos na segunda reunião do Comitê de Biocompetitividade e Sustentabilidade da ABAG.

Na abertura, Eduardo Bastos, presidente do Comitê e diretor-executivo do Instituto Equilíbrio, destacou a importância de aprofundar o conhecimento sobre os efeitos das pautas de sustentabilidade para o mercado e seus desdobramentos sobre o desempenho, a rentabilidade e as novas oportunidades para o setor.

Créditos de carbono e regulamentação do SBCE

O potencial dos créditos de carbono para o agronegócio esteve entre os temas centrais da reunião. Natascha Trennepohl, PhD e sócia da Carbonn Nature, apresentou o estudo O agronegócio brasileiro no mercado de carbono internacional, elaborado pela consultoria para o Instituto Equilíbrio e a ABAG.

“O momento atual da regulamentação é um momento de organizar, discutir e decidir quem terá acesso a esses créditos”, afirmou.

O trabalho examinou o potencial de geração de créditos agropecuários, sua elegibilidade nos mecanismos do Artigo 6 do Acordo de Paris e no mercado internacional da aviação, além do equilíbrio entre a obtenção de receitas e o cumprimento dos compromissos climáticos brasileiros.

A análise considera cenários de geração de créditos entre 2025 e 2035. No cenário conservador, o potencial chega a 25,6 milhões de créditos. A venda integral desse volume poderia representar receitas estimadas de R$ 3,85 bilhões em ITMOs — Resultados de Mitigação Internacionalmente Transferidos — ou de R$ 5,78 bilhões no CORSIA, mecanismo internacional de compensação e redução de emissões da aviação. O impacto estimado sobre a segunda NDC brasileira seria de 6,6%.

No cenário integral, o potencial alcança 314,3 milhões de créditos. A autorização para comercializar 5% desse volume poderia gerar cerca de R$ 2,36 bilhões em ITMOs ou R$ 3,54 bilhões no CORSIA, com impacto estimado de 4% sobre a segunda NDC. Se a autorização alcançasse 15% dos créditos, as receitas poderiam chegar a R$ 7,09 bilhões e R$ 10,63 bilhões, respectivamente, mas o impacto sobre a meta climática subiria para 12,1%.

As estimativas utilizaram preços de referência de US$ 30 por tonelada para ITMOs, US$ 45 para créditos destinados ao CORSIA e câmbio de R$ 5,01 por dólar. Os valores representam potenciais analíticos, e não receitas contratadas. Sua concretização dependerá da geração e emissão efetiva dos créditos, da demanda internacional, dos preços, da autorização do governo brasileiro e da elegibilidade das metodologias utilizadas.

A conclusão do estudo é que o Brasil pode ampliar sua participação no mercado internacional de carbono sem comprometer o cumprimento da NDC, desde que adote limites graduais, critérios de integridade e uma governança transparente.

A discussão também tratou da regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042/2024. Para a agropecuária, um dos pontos críticos é assegurar o reconhecimento de metodologias compatíveis com as condições tropicais e estabelecer regras claras sobre elegibilidade, registro, rastreabilidade, autorização de transferências internacionais e prevenção da dupla contagem.

Climate Week e preparação para a COP31

A reunião abordou ainda a participação do setor na New York Climate Week e a preparação para a COP31, prevista para novembro, em Antália, na Turquia. Eduardo Bastos e Sabrina Borba, da Agroicone, apresentaram as prioridades para a atuação do agronegócio nessas agendas.

Entre os temas considerados estratégicos estão os biocombustíveis, o mercado de carbono e o financiamento da transição. O Comitê destacou a necessidade de apresentar evidências sobre a capacidade brasileira de ampliar a produção de energia renovável e alimentos sem comprometer a segurança alimentar, além de fortalecer a transparência e a rastreabilidade para atrair investimentos e reduzir o custo de capital.

A preparação para a COP31 inclui a elaboração de um documento técnico sobre transição energética e biocombustíveis e a atualização, inclusive em inglês, do posicionamento anual da ABAG para a Conferência. O trabalho deverá considerar o novo ciclo do Balanço Global do Acordo de Paris e seus reflexos sobre as negociações climáticas.

A proposta é manter a agricultura e os sistemas alimentares no centro das discussões, defender a continuidade da agenda climática relacionada à agricultura e à segurança alimentar e vincular a ambição climática a meios concretos de implementação, como financiamento, capacitação e transferência de tecnologia.

A COP31 terá governança compartilhada. A Turquia conduzirá a Agenda de Ação, com ênfase na relação entre agricultura, alimentação e água, enquanto a Austrália liderará a agenda formal de negociação. Para o agro brasileiro, esse contexto reforça a importância da agricultura tropical sustentável, da irrigação eficiente, da resiliência hídrica e do Plano ABC Mais como referência de política pública.

Ciência, agricultura tropical e agenda internacional

Como parte do esforço para fortalecer a base técnico-científica do setor, Fernando Sampaio apresentou a Rede de Inteligência em Agricultura e Clima (RIAC), criada em 2025. A iniciativa reúne instituições de pesquisa e think tanks para produzir, organizar e traduzir conhecimentos sobre agricultura tropical e clima.

A RIAC pretende aproximar ciência e políticas públicas, identificar tendências internacionais e ampliar a projeção externa das soluções brasileiras. A rede não substituirá a atuação individual das instituições participantes nem funcionará como instância de representação política. A atuação conjunta deverá ocorrer quando houver convergência, benefício coletivo e risco de fragmentação das iniciativas.

Entre as primeiras frentes de trabalho estão a elaboração de um white paper sobre temas prioritários, a construção de parâmetros e métricas para a agricultura tropical, a criação de um centro de síntese de dados agroclimáticos e o apoio técnico ao Enviado Especial para Agricultura da Presidência da COP31, Luiz Carlos Correa Carvalho, presidente do Conselho Estratégico da Abag.

A proposta tem dois sentidos complementares: levar ao exterior evidências sobre a contribuição da agricultura tropical para a segurança alimentar, a transição energética e o enfrentamento das mudanças climáticas; e interpretar tendências científicas, regulatórias, geopolíticas e comerciais, traduzindo-as em implicações para a agricultura brasileira.

Agenda estratégica para as Eleições 2026

Ao final do encontro, foi apresentada a Agenda Estratégica da Agroindústria Brasileira. Elaborado pela entidade, o documento organiza uma visão integrada sobre as capacidades que o país precisa fortalecer para ampliar a competitividade da agroindústria nas próximas décadas.

A agenda propõe uma estratégia de longo prazo para melhorar o ambiente de negócios e consolidar o protagonismo brasileiro na produção sustentável de alimentos, fibras, bioenergia, biomateriais e outras soluções de base biológica.

O documento será utilizado no diálogo com os candidatos nas Eleições 2026 e, posteriormente, com as equipes do novo governo. A iniciativa integra o esforço da ABAG para ampliar a participação do agronegócio na formulação de políticas públicas e antecipar os impactos das transformações climáticas, econômicas e regulatórias sobre a competitividade do setor.