Agronegócio vive combinação inédita de fatores de crise
31/07/26
O agronegócio brasileiro acende um sinal de alerta com os pedidos de recuperação judicial no setor disparando para 33% no primeiro trimestre e aumentando os receios de um novo recorde de endividamento ao longo deste ano.

Uma combinação severa de quebra de safras, quebra nos preços das commodities, crédito mais caro e juros altos tem sufocado produtores e empresas da cadeia agroindustrial. Segundo Renato Buranello, vice-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), a crise é efeito de várias causas somadas.
“A verdade é que o agro é cíclico, tem os seus momentos de altos e baixos, somado a questões como questões de quebra de safra, custos de insumos, menores margens e talvez uma transição no modelo de crédito, para a qual o produtor já vinha sendo preparado”. No entanto, Renato pondera que a transição de recursos públicos para um modelo cada vez mais privado ainda não se consolidou. “Quando você fala de maiores taxas, é uma adaptação à questão de maior participação do financiamento privado bancário e do mercado de capitais”
Na avaliação de Renato, a deflagração da crise foi uma soma de efeitos no ano passado. “A gente já teve um ano bem difícil. Este ano se consolidam estes fatores de dificuldade e a gente tem sim, com certeza, já uma ideia de que essa ressaca vai para o ano que vem”.
O especialista afirma que o ciclo de alta de dois anos atrás não se repetiu. Dentre os fatores que levaram a este ponto, Renato cita a queda de preços, alta de insumos, crise climática com perda de produtividade em certas regiões, como a crise do Rio Grande do Sul e no Centro-Oeste. “A gente de fato vê uma dificuldade maior até do que as outras crises. A soma de fatores desta está levando talvez a uma dinâmica quase única. A gente, pela primeira vez, experimenta essa combinação tão perfeita para a crise”.
Sobre o El Niño, Renato explicou que existem dois principais programas de seguro rural no país, mas que os dois têm uma cobertura ainda muito baixa no país. “São programas que os recursos aplicados são insuficientes e a aplicação deste recurso, o Proagro por exemplo, não traz maior eficiência na gestão destes riscos climáticos”.
Segundo ele, a baixa cobertura de seguro, entre 3 e 4%, prejudica o setor. “Um país produtor do nosso tamanho não pode ter uma área tão pequena de cobertura do seguro rural, dado que as crises climáticas e os efeitos do clima na agricultura já são comprovados e têm sido acentuados nos últimos anos”. Renato afirma que o seguro e a melhor gestão de risco são instrumentos fundamentais para o manejamento de crises de uma maneira mais resiliente e forte.