Super El Niño ameaça agronegócio brasileiro

27/07/26

O Centro de Previsão Climática (CPC) dos Estados Unidos confirmou 81% de chance de o El Niño atingir a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro de 2026. Chamado de Super El Niño, o fenômeno pode ser um dos mais intensos registrados desde 1950 e deve provocar mudanças significativas no regime de chuvas e nas temperaturas em diferentes regiões do Brasil, com impactos diretos sobre o agronegócio.

A previsão é de chuvas acima da média na Região Sul, enquanto as regiões Norte e Nordeste devem registrar precipitações abaixo do normal. Já o Sudeste e o Centro-Oeste, por estarem localizados em uma área de transição, representam uma zona de maior incerteza para os meteorologistas. Ainda assim, a expectativa é de que essas regiões também enfrentem anomalias negativas de chuva, com volumes inferiores à média histórica, segundo Ricardo Camargo, professor de Meteorologia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com Camargo, o fenômeno deve se iniciar no fim do inverno ou no começo da primavera e se estender até o início do outono de 2027. A redução das chuvas pode influenciar a temperatura média do verão, aumentando o risco de ondas de calor, fenômeno caracterizado por períodos prolongados de temperaturas muito acima da média.

As mudanças climáticas promovidas pelo Super El Niño representam um risco para o agronegócio brasileiro. No Centro-Oeste e no Sudeste, que sofrem com chuvas irregulares, as altas temperaturas podem causar estresse térmico e hídrico em fases críticas de culturas perenes, como a florada do café e dos citros.

Além disso, a irregularidade das chuvas pode comprometer o início do plantio da nova safra de soja e milho, com impacto sobre a primeira safra do ciclo 2026/27, segundo Cesário Ramalho, coordenador do Conselho do Agronegócio da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

“Se a semeadura atrasar, pode afetar a produtividade e a qualidade dos grãos, já que o cultivo perderá sua janela ideal de desenvolvimento. Este quadro pode levar à necessidade de replantios, o que automaticamente eleva os gastos do produtor”, explica Ramalho.

O atraso da colheita da primeira safra pode provocar um efeito cascata sobre o plantio da segunda safra de milho da temporada 2026/27, aumentando os riscos de perda de rendimento, queda na qualidade da produção e necessidade de um novo plantio.

Devido ao elevado volume de chuvas esperado para a Região Sul do país, o excesso de umidade no solo satura as raízes e tem como consequência o atraso das operações com maquinário, além de poder comprometer os tratos fitossanitários dos cultivos (práticas para proteger a plantação de pragas, doenças e plantas daninhas). “Nas culturas de inverno, como o trigo, por exemplo, o quadro favorece o surgimento de doenças fúngicas, reduzindo o rendimento e a qualidade do grão. Pastagens podem ser afetadas pela falta de sol e pelo excesso de lama”, diz Ramalho.

Já na pecuária, tanto de corte quanto de leite, o estresse térmico generalizado diminui a taxa de conversão alimentar, uma vez que o gado bovino necessita comer mais para atingir o ponto de abate ou manter a produção de leite, conforme explica Ramalho. Esses fatores geram mais gastos para o produtor e afetam a produtividade dos rebanhos.

O atraso no plantio, no desenvolvimento das culturas e até mesmo na colheita pode agravar a capacidade de armazenamento. “Se a semeadura da soja atrasar, ela será colhida mais adiante, para ser imediatamente despachada ou estocada”, diz. “Nessa lógica de atrasos sucessivos, faltarão silos para armazenar a safra, seja ela de soja ou milho. Tudo isso vai afetar lá na frente a logística de transporte, com a necessidade de escoar, ainda que não no tempo ideal, grãos estocados para o armazenamento de novos cultivos, gerando toda sorte de novos gastos para o produtor”, complementa.

De acordo com Ingo Plöger, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), os produtores rurais precisam olhar com cuidado para a janela de colheita e plantio, uma vez que a agricultura brasileira é tropical, possibilitando mais de duas colheitas por ano. Dessa forma, aumenta a incerteza dos agricultores sobre quando plantar e colher.

Os efeitos do fenômeno dependem bastante do cultivo de cada produtor, sendo mais intensos em alguns grãos e determinadas lavouras que possibilitam várias colheitas ao longo do ano, com ciclos de cerca de quatro meses, como é o caso da soja e do milho, segundo Plöger. “Então, se você está com caju, manga, melão, que não dependem de irrigação artificial, esse produtor sofrerá muito”, diz.

Além desses fatores, Plöger menciona que existe o próprio risco da natureza, como o aumento dos incêndios devido à baixa quantidade de chuvas. “Do Centro-Oeste até o Norte existe a probabilidade de faltar água. Então, precisamos olhar os reservatórios para entender como esse recurso está sendo gerenciado”, diz.

Precauções

Adotar boas práticas agrícolas, como o sistema de plantio direto, que retém umidade e eleva a matéria orgânica no solo; priorizar materiais genéticos mais resistentes ao estresse térmico; investir em estruturas de bem-estar animal na pecuária; e organizar a provisão de alimentos para os plantéis, como feno e forrageiras, são algumas das ações que podem ajudar os produtores a reduzir os efeitos do fenômeno, segundo Ramalho.

Seguro rural

Na visão do presidente da Abag, o Super El Niño evidencia a necessidade de um seguro rural mais estruturado para os produtores. De acordo com um levantamento do Observatório do Crédito e do Seguro Rural, vinculado ao Centro de Estudos em Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), a área segurada no Brasil caiu de aproximadamente 13,45 milhões de hectares, em 2021, para 3,2 milhões de hectares, em 2025.

Em 2026, dos R$ 1,01 bilhão previstos na Lei Orçamentária para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), a disponibilidade orçamentária foi reduzida para cerca de R$ 473,8 milhões, após sucessivos bloqueios e cancelamentos.

De acordo com Ingo Plöger, é preciso entender que os eventos climáticos tendem a se tornar mais frequentes, sendo necessário que o governo trate o agronegócio com uma estratégia de longo prazo, por meio de um plano de proteção de 15 anos que ampare os produtores diante desses eventos.

O presidente defende que países mais desenvolvidos possuem planos para reduzir os efeitos desses eventos climáticos, enquanto o Brasil não conta com esses “amortecedores”, deixando que os produtores arquem com todos os custos e riscos.

Como exemplo, Plöger menciona as fortes chuvas no Rio Grande do Sul, em 2024, quando muitos produtores não conseguiram pagar suas dívidas e, consequentemente, continuar produzindo. “O Rio Grande do Sul, que foi duramente castigado, tem que pagar pelo desastre que já viveu e pelo que ainda pode viver, e a safra não paga. Com isso, esses produtores acabam abandonando a propriedade ou quebrando”, diz.

Além disso, o presidente da Abag afirma que o Brasil precisa buscar financiamentos associados a seguros, possibilitando mitigar economicamente o risco climático. De acordo com Plöger, muitas vezes os seguros não cobrem esses eventos climáticos, exigindo uma elevada capilaridade que ofereça garantias às seguradoras.

“Existem alguns economistas que dizem que, como garantia, poderia ser destinada uma pequena parcela das reservas internacionais. Você as vincula, elas continuam sendo gerenciadas pelo Banco Central e, se acontecer algo, esse montante seria destinado ao mercado secundário de seguros”, diz Plöger, que ainda afirma que, atualmente, o seguro é muito caro, não havendo incentivos para sua contratação, além de a cobertura oferecida não compensar para os produtores rurais.

Ramalho tem uma visão semelhante. Segundo o coordenador do Conselho do Agro da ACSP, atualmente, um dos maiores desafios para enfrentar os eventos climáticos é a falta de um bom seguro rural. Ele defende que o seguro estabeleça uma lógica de garantia para o produtor. “O seguro é fundamental. Nesse sentido, a subvenção governamental ao prêmio, que é o valor pago pelo produtor na apólice, precisa ter seus recursos elevados e blindados no Orçamento. Países como Espanha e Estados Unidos, que têm programas de seguro rural privados mais avançados, tiveram na subvenção a alavanca para a expansão”, diz Ramalho.

O que é o El Niño?

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo deslocamento das águas aquecidas do oeste do Oceano Pacífico Equatorial, próximo à Oceania, para o Pacífico Central e o leste, chegando à costa das Américas.

Quando esse deslocamento das águas aquecidas se acopla à atmosfera, a formação das nuvens profundas, que está diretamente associada às áreas de maior temperatura do oceano, também muda de posição. Como consequência, ocorre uma alteração na circulação atmosférica, afetando não apenas a região do Pacífico, mas também o padrão climático em diversas partes do planeta.

“Precisamos considerar que o Oceano Pacífico é muito extenso. O deslocamento da formação de nuvens profundas de uma extremidade à outra representa uma mudança significativa na atmosfera”, explica Camargo.

A intensidade do El Niño é determinada pelas anomalias da temperatura da superfície do mar em regiões demográficas específicas. Os cientistas comparam a temperatura observada nessas áreas com a média histórica. Quanto maior a diferença em relação à média, maior é a intensidade do fenômeno, que pode ser classificado como fraco, moderado, forte ou muito forte, conforme explica Camargo.