Maiores setores econômicos querem esforço concentrado no próximo governo
23/10/26

Os cinco maiores setores da economia têm como demandas ao próximo mandato presidencial a redução do custo do crédito, a mitigação de eventuais efeitos da mudança na escala de trabalho e o estabelecimento de condições mais favoráveis ao aumento da produtividade, entre outros pleitos que estão sendo sintetizados em cartas encaminhadas a presidenciáveis.
O aumento da atuação de organizações criminosas em diferentes atividades econômicas, distorcendo as regras de concorrência, é outro fator de preocupação para negócios que atuam na legalidade.
No lado industrial, uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada pouco antes do primeiro turno das eleições, mostra que 29% dos empresários do setor defendem a redução de impostos e a consolidação da reforma tributária como prioridade para o mandato presidencial a partir de 2027. O equilíbrio fiscal e a melhoria da gestão pública aparecem na sequência, citados como prioridade por 22% dos empresários.
Outra pauta considerada urgente para o País, conforme a pesquisa, é o incentivo à indústria e à produção. Em termos de empregabilidade, cerca de 71% dos empresários apontaram a redução de impostos sobre a folha de pagamento. Já houve menções ao pleito tanto na campanha de Lula (PT) quanto na de Flávio Bolsonaro (PL).
O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) declarou, em fevereiro deste ano, que os encargos sobre a folha de pagamento devem entrar na próxima agenda de reformas econômicas, independentemente do governo que será eleito. Haddad classificou como “muito elevados” os custos para os setores e destacou como exemplo a cota patronal – parte que as empresas pagam ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Flávio Bolsonaro (PL), por sua vez, tem dito que pretende diminuir os tributos incidentes sobre a folha de pagamento caso seja eleito. A medida é apresentada como uma forma de aliviar os custos para o empresariado diante de mudanças na jornada de trabalho.
Outra constatação relevante no levantamento da CNI foi a falta de mão de obra qualificada por ter sido tão prejudicial quanto o elevado custo do crédito para o setor no último ano. Os itens “alta carga tributária”, “indisponibilidade de mão de obra” e “taxa de juros elevada” foram citados como os fatores que causaram maior impacto negativo para o setor industrial nos últimos 12 meses.
“A sociedade brasileira espera respostas para termos um País mais justo, com mais oportunidades e menos desigualdade, mas ao mesmo tempo não pode conviver com riscos de manutenção de juros estratosféricos e de excessos de gastos públicos. Se não houver correção de rumo, cada vez mais vai aumentar a distância do País em relação ao desenvolvimento sustentável”, declarou o presidente da CNI, Ricardo Alban, durante a divulgação da pesquisa.
Para 72% dos empresários industriais, o corte de gastos para redução da dívida pública é a principal medida a ser tomada pelo próximo governo para permitir uma redução sustentável dos juros no País. A autonomia do Banco Central e a ampliação da concorrência entre bancos seriam outros fatores necessários para aliviar o custo de crédito.
Comércio e serviços
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) elenca, entre outras prioridades, a reforma do Código Civil para “sistematizar e modernizar” o direito empresarial, com a perspectiva de reunir em um único diploma regras atualmente dispersas. A redução do contencioso tributário e o debate sobre acesso ao crédito e preservação de liquidez empresarial também são temas apontados como prementes.
Com a mudança na escala de trabalho (fim da escala 6×1), haverá adaptação das empresas às novas regras de jornada e repouso semanal. A CNC avalia que a redução da jornada poderá afetar o ritmo de geração de empregos nos setores de comércio e serviços, mas ainda não é possível determinar a dimensão ou a direção desses efeitos.
O presidente da Confederação, José Roberto Tadros, diz que o impacto dependerá da capacidade de adaptação das empresas, das condições econômicas e de eventuais medidas que contribuam para compensar o aumento dos custos trabalhistas.
“No curto prazo, especialmente em 2027, a expectativa é de um período de maior pressão sobre os custos operacionais, com necessidade de reorganização das equipes, revisão de horários e escalas e possíveis repasses aos preços. Dependendo do porte e da capacidade financeira das empresas, também poderão ocorrer redução de contratações e ajustes nos quadros de pessoal. Os pequenos negócios tendem a enfrentar maiores dificuldades para absorver esses custos”, apontou.
Agronegócio
No agronegócio, o pleito defendido é para que se estabeleça um planejamento de longo prazo para investimentos em infraestrutura, logística, financiamento e seguros, de modo a dar previsibilidade aos projetos e estimular a participação da iniciativa privada.
A avaliação da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) é que as políticas públicas precisam estar integradas a uma estratégia plurianual, com horizonte de pelo menos cinco anos, que permita ajustes conforme as condições econômicas e climáticas.
“Nosso pleito é que se trabalhe de uma forma plurianual, que pode ser um horizonte de cinco anos para frente. Qualquer infraestrutura que você faça, por PPPs ou por investimentos diretos do Estado, leva um tempo muito maior até a execução e a consecução final”, diz o presidente da Abag, Ingo Plöger.
Outro pleito do agro é o fortalecimento dos mecanismos de defesa comercial diante das mudanças no cenário internacional. O setor defende regras que assegurem condições de competição consideradas justas, especialmente diante de fornecedores estrangeiros que contam com subsídios estatais.
Construção
Na construção civil, a preocupação com as mudanças na jornada de trabalho está relacionada tanto ao aumento dos custos das obras quanto à dificuldade de contratação. Segundo o vice-presidente da área de Infraestrutura da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Vinicius Benevides, estudos citados pela entidade apontam que a redução da jornada pode elevar em até 10% o custo total das construções.
“Por ser um setor altamente intensivo em mão de obra, a gente gera dois problemas. Um é o aumento do custo das construções, isso é um impacto sensível e imediato, então, primeiro em 5% aproximadamente do custo da mão de obra no primeiro ano e depois em 10% do custo da mão de obra. Fora isso você tem os aumentos que vão ter em cascata na cadeia de fornecimento dos insumos e prestação de serviço”, afirma Benevides.
A construção civil também coloca o equilíbrio fiscal entre as prioridades para o próximo governo. Na avaliação da CBIC, a redução do custo de capital depende da sustentabilidade de longo prazo das contas públicas, de maior eficiência do Estado e de uma reforma administrativa.