O que dizem as lideranças do agro sobre a reeleição de Lula
26/10/26

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi avaliada por representantes da agricultura familiar como a garantia da continuidade de políticas públicas voltadas a esse público, retomadas nesta gestão após paralisação nos quatro anos do governo de Jair Bolsonaro (PL), e da representatividade do segmento na Esplanada, com a manutenção do Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Sob anonimato, lideranças do agronegócio, setor que apoiou em peso Flávio Bolsonaro (PL) no pleito, demonstraram frustração. Eles reforçaram críticas à política fiscal do petista e alertaram para riscos para a economia diante da continuidade de uma “gastança” pública. O cenário, defendem, influencia a manutenção das taxas de juros em alta e impacta nos negócios do campo.
Pequenos, médios e grandes produtores concordaram, no entanto, que o presidente Lula terá desafios imediatos e de longo prazo para vencer. Um dos temas urgentes é o custo de insumos da safra, como o óleo diesel, caso não haja prorrogação dos subsídios. O setor também quer uma solução para a situação de endividamento rural.
Vânia Marques, da Contag
Vânia Marques, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Contag), afirmou que a reeleição significa a manutenção de políticas que poderiam ser descontinuadas caso Flávio Bolsonaro (PL) fosse eleito.
“O governo Lula entendeu a importância da agricultura familiar, colocando o setor como prioridade dentro das ações construídas. A continuidade de Lula é continuidade dessas políticas, dos investimentos, dos espaços que haviam sido extintos”, disse à reportagem. Entre essas ações estão a retomada do Plano Safra da Agricultura Familiar, a formação de estoques públicos de alimentos, o programa Mais Alimentos e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Para os próximos quatro anos, a dirigente aponta a necessidade de ampliação do orçamento federal para a agricultura familiar e da consolidação das ações de assistência técnica e extensão rural. Uma das metas da ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, é aprovar uma lei para criar um sistema único para essas políticas, o Suater.
Eugênio Zanetti, da Fetag-RS
No Sul do país, a preocupação é com a retomada da capacidade produtiva após anos de intempéries climáticas e endividamento. Eugênio Zanetti, presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), disse que o governo Lula deve “refletir onde errou e corrigir o rumo”, pois tem “muitas coisas a melhorar”.
Segundo ele, as dívidas rurais ainda são um ponto a ser resolvido e que o setor agropecuário precisa de um “olhar diferenciado” no próximo mandato.
“Precisamos reduzir taxas de juros, ter seguro agrícola, Proagro [Programa de Garantia da Atividade Agropecuária] que funcione. Temos menos de 10% da agricultura com algum tipo de seguro, é inaceitável para um país que depende tanto da agricultura”, criticou.
Zanetti comemorou ainda a manutenção do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA). A intenção de Flávio Bolsonaro (PL) era incorporar a Pasta ao Ministério da Agricultura. O dirigente lembrou ainda que a reeleição de Lula significa “alívio” ante ameaças de mudanças nas regras da aposentadoria rural.
Ingo Plöger, da Abag
Em nota, o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Ingo Plöger, ressaltou a necessidade de o novo governo de Lula “atuar na pacificação do país, construir pontes entre diferentes setores da sociedade e promover o diálogo necessário à formação de consensos acerca das prioridades nacionais”.
Ele destacou ainda que o desempenho da agroindústria depende de um planejamento de longo prazo, políticas integradas a uma estratégia plurianual e previsibilidade para investimentos em infraestrutura, logística, financiamento e seguros.
Tirso Meirelles, presidente da Faesp
“A democracia não é um evento que se encerra no dia da votação; é um processo vivo que exige cuidado, diálogo e aperfeiçoamento diário. Ela se consolida quando há compromisso genuíno com a totalidade da sociedade, e não apenas com uma parcela dela”, disse em nota o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Tirso Meirelles.
De acordo com o texto, respeitar a decisão soberana do eleitorado é o pilar de qualquer democracia civilizada. No entanto, segundo o dirigente, o resultado das urnas traz recados claros que não podem ser negligenciados pelo governo eleito. “Cerca de 49% da população manifestou nas urnas o desejo por mudança, exigindo responsabilidade fiscal, eficiência e segurança. Soma-se a isso uma parcela expressiva de cidadãos que optou pelo abstencionismo ou votos nulos e brancos, sinalizando que não se enxergou nas propostas apresentadas”, informou o dirigente da Faesp.
Diante desse cenário, segundo a nota, o agronegócio paulista continuará exercendo seu papel altivo na defesa das pautas fundamentais para os cidadãos brasileiros que alimentam o Brasil e o mundo. O texto cita ainda medidas que considera fundamentais para o avanço do país:
- Combate aos excessos tributários;
- Redução dos custos financeiros;
- Equilíbrio fiscal;
- Segurança no campo.
Lucas Costa Beber, da Aprosoja-MT
“O resultado das urnas precisa ser respeitado. A democracia pressupõe que, encerrada a eleição, os interesses do Brasil estejam acima das disputas políticas”, disse o presidente da Aprosoja-MT, Lucas Costa Beber, em nota. “Independentemente de quem tenha vencido, esperamos que o próximo governo tenha sabedoria, responsabilidade e capacidade de pacificar o país, recuperar a confiança e criar um ambiente favorável ao investimento, ao empreendedorismo e ao crescimento econômico.”
A associação também propõe uma estratégia de desenvolvimento baseada na integração entre agricultura, indústria e energia, com incentivos aos biocombustíveis, incluindo etanol, biodiesel e combustível sustentável de aviação (SAF), para agregar valor à produção nacional. Defende ainda responsabilidade fiscal, juros menores, segurança jurídica e relações comerciais pragmáticas com China e Estados Unidos.
“O próximo governo não deve apenas pensar em como fazer o Brasil produzir mais, mas em como fazer o Brasil prosperar mais com aquilo que produz. E, acima de tudo, precisa compreender que não existe agricultura forte sem produtores economicamente saudáveis. O Brasil precisa cuidar de quem produz e transformar essa força em oportunidades para toda a sociedade”, ressaltou.
Indústria de insumos
A CropLife, que representa a indústria de insumos no Brasil, cumprimentou Lula pela reeleição e defendeu uma agenda voltada à inovação, à atração de investimentos e ao fortalecimento da competitividade da agricultura brasileira.
Em nota, a entidade afirmou que pretende contribuir com o novo governo na construção de políticas para o desenvolvimento do agronegócio. A associação destacou a importância da segurança jurídica, de um ambiente de negócios favorável à atração de capital e da modernização da infraestrutura produtiva para impulsionar a produtividade agrícola.
Também defendeu o fortalecimento da capacidade de investimento dos produtores rurais e a ampliação do acesso a tecnologias.