Etanol pode ampliar protagonismo do Brasil na descarbonização do transporte marítimo
22/06/26

A expansão dos biocombustíveis e o potencial do Brasil na descarbonização do transporte marítimo estiveram no centro dos debates da primeira reunião do Comitê de Bioenergia da ABAG no biênio 2026–2027.
O encontro reuniu representantes do setor para discutir tendências, aplicações, avanços regulatórios e oportunidades para ampliar a participação da bioenergia na transição energética global.
Sob a liderança de Jacyr Costa Filho (Agroadvice/Fiesp), o Comitê iniciou a construção de sua agenda estratégica para o período, com foco na competitividade, na expansão dos mercados ligados à bioenergia e no fortalecimento da participação brasileira no tema. Cláudio Oliveira (Raízen) e Henrique Araújo (Copersucar) ocupam as vice-presidências do grupo, coordenado por Roberto Araújo (ABAG).
Já na abertura dos trabalhos, Henrique Araújo destacou que atualmente mais de 90% da produção de etanol no Brasil é destinada ao setor automotivo e que a expansão para novos mercados será fundamental para sustentar o crescimento da demanda. Segundo ele, a adoção de uma mistura de 10% de etanol nos combustíveis marítimos poderia representar um mercado adicional de cerca de 50 bilhões de litros para o produto brasileiro.
Cláudio Oliveira ressaltou a importância da aprovação do Net Zero Framework como referência para a descarbonização do transporte marítimo e destacou a necessidade de preparar o setor para atender ao crescimento esperado por combustíveis renováveis nos próximos anos.
A reunião contou com exposições de Mário Barbosa, da Wärtsilä, Felipe Cassab, da Aliança Maersk, e Alexandre Alonso, chefe-geral da Embrapa Agroenergia, que contribuíram com análises sobre os desafios e as oportunidades para o desenvolvimento de soluções de
baixo carbono no transporte marítimo.
Ao abordar os caminhos para a descarbonização da navegação, Mário Barbosa ressaltou a importância de compreender toda a cadeia envolvida no processo de transição energética. “Quando falamos em descarbonização marítima, é necessário entender o ecossistema em que estamos inseridos”.
Segundo ele, o avanço dos combustíveis renováveis para navegação depende não apenas da disponibilidade de novas fontes de energia, mas também da adaptação tecnológica das embarcações, da infraestrutura de abastecimento e da integração entre os diferentes agentes da cadeia logística. A combinação entre tecnologia, eficiência operacional e segurança será determinante para acelerar essa descarbonização
A discussão também trouxe a perspectiva dos grandes operadores globais de transporte marítimo. Felipe Cassab apresentou as metas de descarbonização da Maersk, que incluem a operação de navios dual fuel e o compromisso de alcançar emissões líquidas zero até 2040. “Temos que parabenizar todos os envolvidos na IMO (Organização Marítima Internacional) no Brasil pelo protagonismo.”
Cassab pontuou ainda que o país reúne condições para se tornar um fornecedor estratégico de combustíveis renováveis para a navegação internacional, em um momento de crescente demanda global por soluções de baixo carbono.
Durante os debates, os participantes também apontaram desafios estruturais para que o Brasil aproveite plenamente as oportunidades abertas pela transição energética. Entre eles, a necessidade de ampliar a infraestrutura logística e portuária para receber embarcações adaptadas aos novos combustíveis. “A gente precisa melhorar nossa infraestrutura portuária para atrair esses navios”, observou Danilo de Moraes Veras, diretor de Public Affairs para a América Latina da Maersk.
Já Alexandre Alonso, chefe-geral da Embrapa Agroenergia, apresentou iniciativas voltadas ao desenvolvimento de combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e combustíveis renováveis para navegação, além de destacar ações de pesquisa e desenvolvimento voltadas à transição energética.
Os debates reforçaram que o Brasil reúne vantagens competitivas para ampliar seu protagonismo na descarbonização do transporte marítimo global, combinando disponibilidade de biomassa, experiência consolidada na produção de biocombustíveis e capacidade de atender à crescente demanda por combustíveis renováveis. O desafio, segundo os participantes, será transformar esse potencial em escala, infraestrutura e competitividade internacional.
Confira fotos da primeira reunião do Comitê de Bioenergia da ABAG no biênio 2026–2027, realizada na sede do Instituto Pensar Agropecuária (IPA), em Brasília.